Quem não respeita gente pode respeitar um profissional?

Acho que alguns clientes, definitivamente, resolveram provocar o mercado para ver no que dá. Acostumados a nossa passividade e omissão, e até certa covardia, muito mais por conta do medo que paralisa do que pela força que privilegia, eles estão fechando cerco.

Semana passada, a mídia de comunicação em geral trouxe um notícia aviltante. Um cliente divulgando, na cara de pau, que passará a pagar seus fornecedores em 75 dias (Veja aqui).

O que tem isso de novidade? Você me pergunta? Tem que até hoje os clientes faziam isso, ok, mas às escondidas. A AmBev, por exemplo, adotou essa medida há longo tempo, mas não divulgava nos meios de comunicação. Sabemos disso por papo de mercado. Todo mundo fulo da vida com o lance, mas um monte de agências se submetendo a isso.

E por que se submetem? Ora, só dois tipos de agência podem fazê-lo por opção: As que têm cacife financeiro de alguma natureza, dinheiro em caixa para segurar seis meses, ou como sócios Bancos ou financeiras, pois aí conseguem capitalizar, ganhando no volume da conta que atendem – portanto, grandes grupos; ou as agências que não têm grana, pequenas, iniciantes, que querem colocar o nome AmBev no portfólio, já que se trata de uma grande empresa, e, talvez, eu disse talvez, abra portas com outros clientes.

Algumas quebram mesmo antes de divulgar isso, outras, aguentam um ano no prejuízo para abrir mão da conta e tentar seguir em frente. As outras trabalham por falta de opção mesmo.

Ambas erram e fomentam a ideia de que dá pra trabalhar assim. Conheço agências que abrem mão de trabalhar com quem paga com mais de 30, 45 dias, prazo que dá pra segurar o pagamento a fornecedores e folha, mas elas estão começando a ter problemas.

A saída é ser autoral e não ter clientes, mas investidores. Sim, porque nós é que bancamos os eventos e as ações dessas “grandes” empresas que se valem do seu tamanho para massacrar o nosso mercado. Mas que não fariam nada se nós não pagássemos os fornecedores de suas grandes ações e campanhas de live marketing.

Elas sabem muito bem que salários, impostos e especialmente fornecedores não têm como esperar 60, 75, 90 ou 120 dias para receber por algo que fazem hoje e pelo qual pagaram o material de sua atividade, às vezes, à vista, como lona e madeira, tecido, comida, insumos e GENTE, em especial.

Sabem porque fazem dinheiro às nossas custas para pagar exatamente isso. Ou será que os seus fornecedores de matéria prima e insumo, o seu pessoal de campo, sua força de trabalho, esperam 120 dias para receber. Melhor, será que eles nos venderiam os seus produtos para que nós os consumíssemos hoje e pagássemos em 120 dias? Duvido!

Pois bem. A Mondelez, multinacional dona de marcas como Oreo, Lacta e Trident anunciou publicamente que pagará seus fornecedores em 120 dias, exatamente uma semana depois que a Procter & Gamble ter comunicado que vai pagar suas agências com 75 dias. Coincidência? Claro que não!

Nossa omissão e aceitação sem reclamar das arbitrariedades gerou isso e não se assustem se outras empresas tomarem o mesmo caminho. Por onde entra uma vaca entra um rebanho.

A gente reclama, ok. Mas nunca deu nome aos bois. Pronto, eu dei, está dado, mesmo porque eles perderam o medo de dizer quem são. Assumem achar isso normal. A gente faz o trabalho para eles, arca com os custos, leva mil broncas quando a comida não está como queriam, a recepcionista não é tão bonita quanto imaginavam, o custo está muito alto, tem que baixar, porque estamos cobrando o mesmo que pagaram no ano passado e temos que dar desconto, porque compras e suprimentos reduziram a verba (Ah! tá. Pergunte se os produtos deles estão custando o mesmo do ano passado para ver qual será a resposta. Eles dirão: é, mas os custos da matéria prima, os impostos, etc. aumentaram. Para eles ok, mas para nós…) e bla, bla, bla.

Onde ficam as pessoas nisso? Onde ficam os profissionais que trabalham virando noites para eles, dando talento e suor em nome de suas marcas? Quem vai dizer a esses profissionais que receberão em 120 dias, porque os clientes agora resolveram de vez que as empresas de comunicação são Bancos que emprestam dinheiro a juro zero para eles potencializem marcas, produtos e serviços, fazendo com que mais gente consuma-os.

Sei que vou ser pressionado por isso. Já aconteceu antes. Que se dane quem fizer. Sei que vão dizer que não devia ter escrito isso assim, porque os clientes vão ficar chateados. Tô muito preocupado.

Não é hora de calar. Ou temos coragem de, juntos, tentar mudar esse quadro ou vão acabar com centenas de agências médias e pequenas, colocar na rua talentos e profissionais maravilhosos, humilhar outros profissionais que terão que se sujeitar a salários indignos ou pagos em parcelas. E eu não quero ter na minha consciência o silêncio como resposta.

Quem não respeita gente, não tem mesmo como respeitar profissionais e trabalho. Mas vai ter que dormir à noite com o eco das minhas palavras, porque não há um ser sensato nesse mundo que possa concordar com essa postura.

Se o que vocês estão fazendo é certo e faz todo sentido pagar profissionais e trabalho em 120 dias num País de inflação crescente (já não era quando estabilizada), proponho um movimento: O Brasil 120.

Isso propomos que tudo no Brasil, inclusive seus produtos e serviços, sejam pagos em 120 dias sem juros nenhum. Vamos enviar ao Congresso essa proposta. Vai ser muito bom capitalizar essa grana e ainda por cima atendê-los com um sorriso e com descontos. Porque aí, nossa vida vai correr às mil maravilhas, a 120.

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